A vida é bela a Droga dá cabo dela

Manhã de sábado. Sábado de um fim-de-semana que, para muitos, é prolongado. Terça-feira será feriado, muita gente faz a ponte; a cidade esvaziou-se ontem. à tarde quando, sequiosas de um pouco de sol e alguma tranquilidade as pessoas correram para as suas terras, para o Algarve ou para algures que lhes permita mudar de ambiente e desacelerar o ritmo do dia-a-dia de Lisboa.
A manhã está bonita e fresca de Primavera recém-chegada. Pouco trânsito, o que é bom para a minha cabeça mas muito mau para o que gostaria e preciso de facturar. Mesmo assim vou vasculhando a cidade à procura de braços que se levantam aqui e além, para as poucas pessoas que dão as suas voltas, que cumprem as suas tarefas.
Atravessava o Largo do Rato sem convicção de descobrir algum cliente, quando pelo canto do olho a vejo de braços no ar a correr em direcção a mim. Encontro-me em mau sítio para parar, mas como o trânsito é pouco arrisco uma paragem algo forçada num local pouco aceitável para um profissional respeitador como eu. Também não sou santo nenhum. Não se podem desperdiçar os raros braços que se levantam e, afinal, com um pouco de boa vontade o carro que me segue passa sem problemas. Vá lá que não apitou, não barafustou, o que já vai sendo raro nos tempos que correm. Talvez porque seja sábado e está sol toda a gente anda mais calma
.Sentou-se ao meu lado presenteando-me com um simpático sorriso, expondo uns dentes bonitos na boca entreaberta. Olhos jovens, bonitos, numa jovem que não sendo bela irradiava juventude e frescura.

- Leve-me a Alcântara... Fez uma pausa - à Meia-Laranja - rematou.
Pensei que não era possível, aquela jovem tão engraçada e com tão bom aspecto, andar metida na droga. Mas, Meia-Laranja, é praticamente fatal.
Começámos a conversar calmamente, eu diria até com doçura. Ela era uma simpatia!
- Sabe, a minha mãe também é empresária de táxi mas os motoristas só lhe dão chatices!...
A experiência leva-me logo a deduções rápidas. Uma mulher não compra um táxi para explorar. Normalmente, as que os têm herdaram-nos dos pais ou dos maridos. O mais habitual é o marido morrer e elas teimarem em ficar com o carro, porque a maioria vende-o para se ver livre de problemas e capitalizar com o dinheiro da venda.
Arrisco e pergunto: - Mas então, herdou-o?
-Foi! - Respondeu sempre com aquele sorriso lindo e os olhos grandes, espontâneos, fixando-me com um grande à vontade - O meu pai morreu. Mas os motoristas dão muitos problemas. Enganam-se muito nas contas. Sabe?...
- Deixe lá, qualquer dia tem que instalar um taxímetro, depois acabam-se as golpadas: - digo eu, para encher a conversa.
- Pois eu também já ouvi dizer isso.
- Claro, que em breve tudo isso se resolve.
Depressa chegámos à Meia-Laranja e já parados, enquanto me pagava e sorria, eu não resisti em satisfazer a minha curiosidade e atrevi-me, com delicadeza:

- Não me diga que você vem aqui à procura de... Eu não acredito!
- Mas é! - Disse-me sempre sorrindo - É uma chatice, mas tem de ser...
- Tem de ser enquanto você quiser que seja - disse-lhe a sério, muito a sério. Você é uma mulher livre! Faz isso porque fez essa opção. Desista enquanto é tempo. Está na sua mão acabar com isso. Você não merece que se deixe tratar mal. Acabe com isso enquanto é tempo!
Enquanto falava eu raciocinava que, com aquela cara tão bonita de frescura jovem, não podia estar viciada há muito tempo. Aparentemente, esta rapariga ainda está a tempo de recuar: - Bolas, não dê cabo da sua vida!
- insisti.
- Sabe, o meu irmão deve ser quem mais trafica lá na nossa zona. Ele é que me meteu nisto. Agora é difícil. . .
- É difícil mas ainda não é impossível. Não vá por aí. . . Acabe com isso enquanto é tempo!... - concluí com firmeza.
- Pois é, tem razão! - disse-me enquanto saía, sempre sorrindo. Arranquei, suavemente, mas incomodado, enquanto ela se embrenhava no inferno do Casal Ventoso. Onde estará esta jovem daqui a cinco anos? Nunca o saberei, para além do que adivinho...

Passos Dias Aguiar

                     
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